terça-feira, 23 de setembro de 2008

Acordo de repente...

Acordo de repente com a tua imagem a pairar nos meus sonhos. Num gesto rápido, enquanto tento abrir os olhos adormecidos pelo sono, olho em redor e apercebo-me de que estou só. Olho para o teu lado da cama e não te encontro. Passo a minha mão pelos lençóis, talvez na esperança de ainda sentir o teu calor, mas apenas sinto o frio gélido da tua ausência. Caio na cama como se o meu corpo enfraquecesse. Respiro fundo, dou meia volta na cama e olho para a janela. O dia ainda não nasceu.
No quarto existe apenas uma cama e uma janela, de onde saem tímidos raios de luz dos candeeiros que iluminam as ruas e que se reflectem na cama e no branco das paredes e do tecto. Há um silêncio ensurdecedor, silêncio apenas interrompido pelo som dos grilos lá fora. Fixo agora um ponto qualquer no tecto e fico em silêncio. Não sei quanto tempo fiquei ali, sozinha, no escuro do quarto, em silêncio, mas pareceu uma eternidade. Ali sozinha, naquele espaço, sinto-me pequena, tudo assume uma outra dimensão, uma dimensão gigantesca. Esfrego os olhos com toda a minha força, como se quisesse acordar de um pesadelo. Quero acordar desta saudade. Tenho vontade de gritar, como disse Peixoto: “entre mim e o meu silêncio há gritos de cores estrondosas”. Era assim que me sentia.

Fecho os olhos e tento adormecer, mas é inútil. Decido ouvir música para me alienar destes pensamentos e da saudade, mas tudo me faz lembrar de ti. Não sinto sono mas quero adormecer, para também adormecer a minha saudade de ti.

Faz hoje sete dias e algumas horas que partiste e faz hoje sete dias e algumas horas que te olhei pela última vez. Lembro-me de cada pormenor teu, do teu riso, de quando cantas pela casa em jeito de brincadeira, da forma como me olhas, da forma do teu corpo, do sabor dos teus beijos, do teu cheiro...sabes, o meu abraço ainda tem a forma do teu corpo.
As lembranças que tenho de ti são das mais brilhantes que alguma vez guardei, tão brilhantes como as estrelas que vimos naquela noite. Lembras-te? Lembras-te do nosso pedido de desejo enquanto olhávamos para a estrela cadente que irrompia pelo céu? Nunca tinha visto um céu tão estrelado. São tantas as memórias, tantos os momentos, mas ás vezes só queria largá-los por instantes, para me esquecer do coração apertado durante semanas, na ausência da outra metade que existe longe, na tua ausência.
Esta noite, queria telefonar-te para ouvir a tua voz, ou viajar até á tua cidade, que também já é a minha cidade, para te reencontrar e percorrer três horas de distância apenas para te abraçar.
[Sophie]

sábado, 20 de setembro de 2008

Meu amor, o tempo somos nós.

"O tempo não sabe nada. O tempo não tem razão. O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção. Se abandonarmos as horas, não nos sentimos sós.
Meu amor, o tempo somos nós."

*
[Jorge Palma] - Eternamente tu

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Não olhei para trás!

Não tive a noção do tempo a passar, porque entre o momento em que o olhei pela última vez até chegar a casa, não estive plenamente consciente, sentia-me adormecida. O aperto que sentia no peito não se comparava com nada que alguma vez tivesse sentido, sentia um vazio, o vazio de quando estás só, onde a dor é tão funda que não consegues impedir que as lágrimas te escorram e inundem o rosto. O nó que sentia no peito deixava-me sem ar, sentia as pernas pesadas, e tornava-se dificil colocar um pé á frente do outro e seguir o meu caminho. Não me recordo de como cheguei até ao carro, apenas me recordo da última vez que o olhei olhos nos olhos, do último beijo, de como as nossas mãos entrelaçadas uma na outro se iam descolando pouco a pouco, enquanto cada um de nós se ia movendo em direcções opostas.

Não olhei para trás.

Durante os minutos que durou a viagem de regresso a casa, a minha vida estagnou. Tudo á minha volta parecia ter parado. Eu não reagia a nada, nem aos sons ou imagens à minha volta. Sentia uma tristesa violenta nas mãos, nos joelhos no peito, na cabeça, nos lábios, nos olhos. Fixei o meu olhar num ponto qualquer enquanto as lágrimas corriam pela cara. Liguei o rádio do carro.

Fechei os olhos!


Dedicado a ti, Daniel ^^

[Sophie]

O vazio

A melancolia pode às vezes ser isto, um modo de sobreviver ao vazio, o comovido jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesa e pedir outro martini fresco se faz favor.
[Manuel de Freitas]

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Introdução

Odiava pessoas.

Era assim que definia o mais profundo dos seus sentimentos, todos eles movidos pela inveja. Odiava pessoas pequenas, gordas, feias ou estúpidas, mas sentia fascínio por mulheres. As mulheres ainda eram para ele um grande mistério. Fascinavam-no. Despertavam qualquer coisa que nem ele próprio conseguia decifrar. A beleza não a conseguia encontrar com a facilidade que as pessoas ditas normais a encontram, aquilo que procura num primeiro olhar sobre cada mulher, são defeitos.

Toda a sua vida viveu isolado, solitário.

Vivia num casarão, num monte, algures no Alentejo. Em redor apenas se viam o monte e o céu, de onde todas as noites de verão se conseguia ver perfeitamente as constelações. O casarão encontrava-se praticamente vazio, com as paredes escuras, sujas e pouco iluminadas, onde qualquer estranho se perderia facilmente na sua imensidão. Apenas uma divisão da casa parecia ser usada pela presença de uma mesa mal iluminada por um candeeiro já velho, onde estava pousado um computador também ele já velho. Esse era o objecto que o ligava ao mundo, que o fazia sentir parte do mundo, que o fazia sentir alguém, um mundo que somente imaginava, uma vez que apenas conhecia a casa onde vivia, sendo a sua única verdadeira companheira, uma coruja que todas as noites aparecia junto da árvore que, em dias de sol intenso tipico do Alentejo, lhe fazia sombra á casa.

A aldeia mais proxima ficava a 79 quilómetros. Uma vez por mês aventurava-se a sair de casa em pleno dia para se abastecer dos bens de primeira necessidade, sendo essa a única ocasião em que deixava os raios de sol tocar a sua pele.

Preferia a noite e os seus mistérios.

Continua.

[Sophie]